A Centelha: Preços do Combustível e a Fúria Pública
Na madrugada de 15 de novembro de 2019 (24 de Aban de 1398 no calendário iraniano), o governo iraniano anunciou um aumento abrupto e inesperado no preço da gasolina. O custo por litro saltou de 10.000 riais para 15.000 riais para uma ração limitada e 30.000 riais para além dela, um aumento de até 300%. A medida, justificada como necessária para financiar subsídios a famílias de baixa renda, foi a faísca que acendeu uma revolta latente. A decisão surpreendeu a população e foi percebida como mais um golpe num país já a braços com sanções económicas severas, inflação galopante e uma crescente desigualdade social. Os cidadãos sentiram-se traídos e viram o aumento como uma prova da indiferença do regime às suas dificuldades diárias.
A reação foi imediata e generalizada. Horas após o anúncio, protestos espontâneos eclodiram em dezenas de cidades e vilas em todo o Irã. Inicialmente pacíficos, com pessoas bloqueando estradas e expressando sua indignação, os protestos rapidamente evoluíram para confrontos à medida que as forças de segurança tentavam dispersar os manifestantes. Slogans anti-regime, direcionados diretamente ao Líder Supremo Ali Khamenei e ao presidente Hassan Rouhani, ecoaram pelas ruas. A queima de pneus, bloqueio de vias e ataques a edifícios governamentais e bancos simbolizaram a profunda frustração e raiva que se acumularam por anos sob a repressão e má gestão.
O Apagão Digital: Isolamento do Povo Iraniano
Percebendo a escala dos protestos e a velocidade com que a raiva popular se espalhava, as autoridades iranianas optaram por uma tática drástica para conter a disseminação de informações e a organização de novos atos: o corte quase total da internet. A partir de 16 de novembro, o acesso à internet móvel e fixa foi sistematicamente interrompido em todo o país. Durante aproximadamente uma semana, a vasta maioria dos iranianos ficou isolada do mundo exterior, incapaz de comunicar-se com familiares, amigos ou de partilhar imagens e vídeos da repressão brutal que se desenrolava. Esta censura digital não foi um evento acidental, mas uma ação calculada para criar uma névoa de sigilo e impedir que a verdade sobre a violência estatal chegasse à comunidade internacional, o que foi confirmado por fontes como a BBC.
O bloqueio da internet teve um impacto devastador. Não só impediu a coordenação dos manifestantes e a documentação das violações de direitos humanos em tempo real, como também paralisou a economia e a vida social. Aplicativos de mensagens como WhatsApp e Telegram, essenciais para a comunicação diária e para pequenas empresas, tornaram-se inutilizáveis. Esta estratégia de 'apagão digital' é recorrente em regimes autoritários, mas a sua escala e prolongamento no Irã em 2019 foram sem precedentes, deixando milhões em desespero e silêncio. Organizações como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch denunciaram veementemente esta tática, chamando a atenção para a sua ilegalidade e o seu impacto nos direitos humanos.
| Fonte | Data de Publicação | Número de Mortos |
|---|---|---|
| Reuters | 23 de Dezembro de 2019 | Cerca de 1.500 |
| Amnistia Internacional | Janeiro de 2020 | Pelo menos 304 |
| Iran Human Rights (IHR) | Fevereiro de 2020 | Pelo menos 480 |
| Boroumand Center | Contínuo | Pelo menos 482 (identificados) |
| Departamento de Estado dos EUA | Dezembro de 2019 | Mais de 1.000 |
Repressão Brutal: 'Tirem todos da frente, não há compaixão'
Com a internet cortada e o olhar do mundo em grande parte afastado, as forças de segurança iranianas lançaram uma campanha de repressão sem precedentes. Guardas Revolucionários, Basij, a força policial e outras milícias paramilitares usaram força letal contra manifestantes desarmados. Relatos horríveis emergiram de balas reais disparadas contra multidões, incluindo em crianças e idosos. Um dos episódios mais chocantes ocorreu na cidade de Mahshahr, na província de Khuzistão, onde foram massacradas dezenas de pessoas, algumas escondidas nos pântanos circundantes, conforme documentado pela Human Rights Watch e pelo New York Times. Testemunhas descreveram um uso indiscriminado de metralhadoras em ruas residenciais.
A Amnistia Internacional, após meses de investigação e recolha de testemunhos e vídeos filtrados, revelou a escala da carnificina. Ordem direta do Líder Supremo Ali Khamenei de 'tirem todos da frente, não há compaixão' foi o sinal verde para o banho de sangue. A organização confirmou o uso generalizado de projéteis reais destinados a matar, com atiradores posicionados em telhados e veículos blindados. Além dos mortos no local dos protestos, centenas foram feridos, muitos dos quais temeram procurar tratamento médico por receio de serem presos, levando a mortes adicionais. Os corpos foram muitas vezes levados diretamente do local do assassinato ou dos hospitais para esconder o número real de vítimas.
A ordem direta do Líder Supremo foi 'tirem todos da frente, não há compaixão'. Esta diretriz selou o destino de centenas de manifestantes em todo o Irã.
Estimativas de Mortos: Mais de 1.500 Vidas Ceifadas
O número exato de mortos na repressão de Aban 1398 permanece um segredo de Estado, mas as estimativas de organizações de direitos humanos e relatórios jornalísticos pintam um quadro sombrio. A Reuters, citando três autoridades iranianas, noticiou a morte de cerca de 1.500 pessoas em menos de duas semanas. Este número incluía pelo menos 17 adolescentes e cerca de 400 mulheres. Esta estimativa é corroborada por fontes como o Boroumand Center e o Aban Tribunal, que têm trabalhado para documentar os nomes e circunstâncias das mortes, apesar da intensa oposição do governo iraniano. A Amnistia Internacional, por sua vez, conseguiu confirmar independentemente a morte de mais de 304 pessoas, alertando que o número real é consideravelmente maior.
Além dos assassinatos, milhares de pessoas foram detidas. A Human Rights Watch e a Amnistia Internacional registraram relatos de tortura e maus-tratos generalizados nas prisões. Familiares dos mortos e detidos foram sistematicamente assediados e ameaçados para não partilharem informações, e muitos foram forçados a pagar 'dinheiro da bala' pelas suas vidas ou pelos corpos dos entes queridos. Este esforço coordenado para abafar a verdade demonstra o desespero do regime em controlar a narrativa e evitar qualquer responsabilização pelas suas ações brutais. A falta de transparência e a intimidação continuam a dificultar a investigação completa e a justiça para as vítimas.
Impacto Duradouro: Medo e Resistência Silenciosa
Os eventos de Aban 1398 deixaram cicatrizes profundas na sociedade iraniana. A brutalidade e a impunidade com que a repressão foi conduzida solidificaram o medo em muitas comunidades, mas também semearam sementes de uma resistência mais profunda. A confiança no governo foi irreversivelmente abalada, e a experiência do apagão digital reforçou a percepção de que o regime se opõe fundamentalmente à liberdade de informação e expressão. Muitos iranianos, especialmente os jovens, viram de perto a disposição do Estado em matar para manter o poder, o que alimentou um ressentimento latente que continua a manifestar-se em outras formas de protesto e oposição silenciosa.
Apesar da severa repressão, o espírito de resistência persiste. Familiares das vítimas de Aban 1398 continuam a exigir justiça, frequentemente enfrentando assédio e prisão. O surgimento de movimentos como 'Mães do Aban' (Mães de Novembro) simboliza esta resiliência, servindo como uma voz para aqueles que foram silenciados. A memória daqueles que morreram é mantida viva através de redes sociais e ativistas que trabalham incansavelmente para documentar os crimes e expor a verdade, muitos deles a partir do exílio. A internet, embora censurada, tornou-se um campo de batalha crucial para a memória e a justiça, com ferramentas como VPNs a contornar as restrições para manter o fluxo de informação.
Consequências e Impunidade: Um Grito Não Ouvido
Até hoje, ninguém foi responsabilizado pelos massacres de Aban 1398. As autoridades iranianas negam a maioria das mortes e atribuem a violência a 'arruaceiros' e 'inimigos externos'. Altos funcionários, como o Líder Supremo Ali Khamenei, que supervisionou diretamente a repressão, e o então presidente Hassan Rouhani, que defendeu os aumentos dos combustíveis, permanecem intocáveis. A falta de investigações independentes e a recusa em cooperar com organismos internacionais de direitos humanos mostram o desprezo do regime pela justiça. A impunidade para tais crimes é uma característica da República Islâmica, encorajando futuras violências e desrespeito pelos direitos humanos, como visto em protestos subsequentes.
A comunidade internacional foi amplamente criticada pela sua resposta morna. Embora muitas nações e organismos, como as Nações Unidas, tenham expressado preocupação e condenado a violência, as ações concretas para responsabilizar o Irã foram limitadas. As sanções existentes focam-se principalmente no programa nuclear e nas finanças, com pouca ênfase na violação sistêmica dos direitos humanos. Esta percepção de complacência internacional apenas reforça a impunidade do regime, permitindo-lhe continuar a reprimir dissidentes sem sérias consequências externas. O Irã Human Rights (IHR) e o Boroumand Center continuam a apelar por um mecanismo de investigação internacional para Aban 1398 e outros crimes contra a humanidade.
Um Futuro de Resistência e Memória
Aban 1398 não foi um evento isolado, mas sim um marco na longa história de repressão e resistência no Irã. Serviu como um prenúncio do que estava por vir em movimentos posteriores, como os protestos de 2022 após a morte de Mahsa Amini, onde o regime novamente recorreu à força letal e ao corte de internet. A memória dos que morreram em novembro de 2019 continua a impulsionar a luta por liberdade e justiça, reverberando nas vozes dos ativistas e na diáspora iraniana que incansavelmente procuram garantir que o mundo não se esqueça. A pressão interna e externa, embora muitas vezes frustrante, é a única via para desmantelar o ciclo de impunidade.
A luta por um Irã livre e democrático é complexa e demorada. No entanto, a determinação do povo iraniano, especialmente das novas gerações que testemunharam a brutalidade de Aban 1398, permanece inabalável. O futuro do Irã dependerá em grande parte da capacidade de sua população de se mobilizar, contornar a censura e manter viva a memória dos sacrifícios feitos. A esperança é que, um dia, os crimes de novembro de 2019 sejam plenamente reconhecidos, os seus perpetradores responsabilizados, e o Irã possa finalmente emergir de décadas de escuridão para uma era de justiça e direitos humanos para todos os seus cidadãos.
Sources
- Amnesty International: Iran: Iranian authorities’ brutal crackdown on November 2019 protests
- Reuters: Special Report: Iran's leader ordered crackdown on protests - 'Do whatever it takes to end it'
- Human Rights Watch: Iran: Regime Forces Massacred Protesters
- Iran Human Rights (IHR): IHR and JFI issue new report detailing killings during November 2019 protests
- Boroumand Center: Documenting the November 2019 Protests in Iran
- BBC News: Iran protests: What really happened in November?
- IranWire: A Crime Against Humanity: Unravelling The Mahshahr Massacre
- New York Times: The Secret History of the Iran Protests
