Iran Holocaust

Diário · PT · · 7 min read

Aban 1398: O Banho de Sangue do Regime Iraniano em Novembro

Em novembro de 2019, o Irã mergulhou no caos quando protestos por todo o país foram brutalmente reprimidos. O regime cortou a internet, matando centenas e mantendo o mundo às escuras sobre a escala da violência e a covardia dos seus atos.

Pedram 6qa · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

A Centelha: Preços do Combustível e a Fúria Pública

Na madrugada de 15 de novembro de 2019 (24 de Aban de 1398 no calendário iraniano), o governo iraniano anunciou um aumento abrupto e inesperado no preço da gasolina. O custo por litro saltou de 10.000 riais para 15.000 riais para uma ração limitada e 30.000 riais para além dela, um aumento de até 300%. A medida, justificada como necessária para financiar subsídios a famílias de baixa renda, foi a faísca que acendeu uma revolta latente. A decisão surpreendeu a população e foi percebida como mais um golpe num país já a braços com sanções económicas severas, inflação galopante e uma crescente desigualdade social. Os cidadãos sentiram-se traídos e viram o aumento como uma prova da indiferença do regime às suas dificuldades diárias.

A reação foi imediata e generalizada. Horas após o anúncio, protestos espontâneos eclodiram em dezenas de cidades e vilas em todo o Irã. Inicialmente pacíficos, com pessoas bloqueando estradas e expressando sua indignação, os protestos rapidamente evoluíram para confrontos à medida que as forças de segurança tentavam dispersar os manifestantes. Slogans anti-regime, direcionados diretamente ao Líder Supremo Ali Khamenei e ao presidente Hassan Rouhani, ecoaram pelas ruas. A queima de pneus, bloqueio de vias e ataques a edifícios governamentais e bancos simbolizaram a profunda frustração e raiva que se acumularam por anos sob a repressão e má gestão.

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Photo: Foad Ashtari · CC BY 4.0 · via Wikimedia Commons

O Apagão Digital: Isolamento do Povo Iraniano

Percebendo a escala dos protestos e a velocidade com que a raiva popular se espalhava, as autoridades iranianas optaram por uma tática drástica para conter a disseminação de informações e a organização de novos atos: o corte quase total da internet. A partir de 16 de novembro, o acesso à internet móvel e fixa foi sistematicamente interrompido em todo o país. Durante aproximadamente uma semana, a vasta maioria dos iranianos ficou isolada do mundo exterior, incapaz de comunicar-se com familiares, amigos ou de partilhar imagens e vídeos da repressão brutal que se desenrolava. Esta censura digital não foi um evento acidental, mas uma ação calculada para criar uma névoa de sigilo e impedir que a verdade sobre a violência estatal chegasse à comunidade internacional, o que foi confirmado por fontes como a BBC.

O bloqueio da internet teve um impacto devastador. Não só impediu a coordenação dos manifestantes e a documentação das violações de direitos humanos em tempo real, como também paralisou a economia e a vida social. Aplicativos de mensagens como WhatsApp e Telegram, essenciais para a comunicação diária e para pequenas empresas, tornaram-se inutilizáveis. Esta estratégia de 'apagão digital' é recorrente em regimes autoritários, mas a sua escala e prolongamento no Irã em 2019 foram sem precedentes, deixando milhões em desespero e silêncio. Organizações como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch denunciaram veementemente esta tática, chamando a atenção para a sua ilegalidade e o seu impacto nos direitos humanos.

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Photo: Bateman · CC BY-SA 4.0 · via Wikimedia Commons
Estimativas de Vítimas Mortais nos Protestos de Aban 1398
FonteData de PublicaçãoNúmero de Mortos
Reuters23 de Dezembro de 2019Cerca de 1.500
Amnistia InternacionalJaneiro de 2020Pelo menos 304
Iran Human Rights (IHR)Fevereiro de 2020Pelo menos 480
Boroumand CenterContínuoPelo menos 482 (identificados)
Departamento de Estado dos EUADezembro de 2019Mais de 1.000

Repressão Brutal: 'Tirem todos da frente, não há compaixão'

Com a internet cortada e o olhar do mundo em grande parte afastado, as forças de segurança iranianas lançaram uma campanha de repressão sem precedentes. Guardas Revolucionários, Basij, a força policial e outras milícias paramilitares usaram força letal contra manifestantes desarmados. Relatos horríveis emergiram de balas reais disparadas contra multidões, incluindo em crianças e idosos. Um dos episódios mais chocantes ocorreu na cidade de Mahshahr, na província de Khuzistão, onde foram massacradas dezenas de pessoas, algumas escondidas nos pântanos circundantes, conforme documentado pela Human Rights Watch e pelo New York Times. Testemunhas descreveram um uso indiscriminado de metralhadoras em ruas residenciais.

A Amnistia Internacional, após meses de investigação e recolha de testemunhos e vídeos filtrados, revelou a escala da carnificina. Ordem direta do Líder Supremo Ali Khamenei de 'tirem todos da frente, não há compaixão' foi o sinal verde para o banho de sangue. A organização confirmou o uso generalizado de projéteis reais destinados a matar, com atiradores posicionados em telhados e veículos blindados. Além dos mortos no local dos protestos, centenas foram feridos, muitos dos quais temeram procurar tratamento médico por receio de serem presos, levando a mortes adicionais. Os corpos foram muitas vezes levados diretamente do local do assassinato ou dos hospitais para esconder o número real de vítimas.

A ordem direta do Líder Supremo foi 'tirem todos da frente, não há compaixão'. Esta diretriz selou o destino de centenas de manifestantes em todo o Irã.
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Photo: عکاس: علیرضا وهاب زاده photographer: Alireza Vahabzadeh · CC BY 4.0 · via Wikimedia Commons
Número de Mortos Relatados em Aban 1398 por Organização 03006009001,2001,500 Amnistia InternacionalIHR (Inicial)Reino UnidoDepartamento de Estado EUAReuters (Estimativa Cúpula) Número de Vítimas Organização
Número de Mortos Relatados em Aban 1398 por Organização

Estimativas de Mortos: Mais de 1.500 Vidas Ceifadas

O número exato de mortos na repressão de Aban 1398 permanece um segredo de Estado, mas as estimativas de organizações de direitos humanos e relatórios jornalísticos pintam um quadro sombrio. A Reuters, citando três autoridades iranianas, noticiou a morte de cerca de 1.500 pessoas em menos de duas semanas. Este número incluía pelo menos 17 adolescentes e cerca de 400 mulheres. Esta estimativa é corroborada por fontes como o Boroumand Center e o Aban Tribunal, que têm trabalhado para documentar os nomes e circunstâncias das mortes, apesar da intensa oposição do governo iraniano. A Amnistia Internacional, por sua vez, conseguiu confirmar independentemente a morte de mais de 304 pessoas, alertando que o número real é consideravelmente maior.

Além dos assassinatos, milhares de pessoas foram detidas. A Human Rights Watch e a Amnistia Internacional registraram relatos de tortura e maus-tratos generalizados nas prisões. Familiares dos mortos e detidos foram sistematicamente assediados e ameaçados para não partilharem informações, e muitos foram forçados a pagar 'dinheiro da bala' pelas suas vidas ou pelos corpos dos entes queridos. Este esforço coordenado para abafar a verdade demonstra o desespero do regime em controlar a narrativa e evitar qualquer responsabilização pelas suas ações brutais. A falta de transparência e a intimidação continuam a dificultar a investigação completa e a justiça para as vítimas.

Impacto Duradouro: Medo e Resistência Silenciosa

Os eventos de Aban 1398 deixaram cicatrizes profundas na sociedade iraniana. A brutalidade e a impunidade com que a repressão foi conduzida solidificaram o medo em muitas comunidades, mas também semearam sementes de uma resistência mais profunda. A confiança no governo foi irreversivelmente abalada, e a experiência do apagão digital reforçou a percepção de que o regime se opõe fundamentalmente à liberdade de informação e expressão. Muitos iranianos, especialmente os jovens, viram de perto a disposição do Estado em matar para manter o poder, o que alimentou um ressentimento latente que continua a manifestar-se em outras formas de protesto e oposição silenciosa.

Apesar da severa repressão, o espírito de resistência persiste. Familiares das vítimas de Aban 1398 continuam a exigir justiça, frequentemente enfrentando assédio e prisão. O surgimento de movimentos como 'Mães do Aban' (Mães de Novembro) simboliza esta resiliência, servindo como uma voz para aqueles que foram silenciados. A memória daqueles que morreram é mantida viva através de redes sociais e ativistas que trabalham incansavelmente para documentar os crimes e expor a verdade, muitos deles a partir do exílio. A internet, embora censurada, tornou-se um campo de batalha crucial para a memória e a justiça, com ferramentas como VPNs a contornar as restrições para manter o fluxo de informação.

Consequências e Impunidade: Um Grito Não Ouvido

Até hoje, ninguém foi responsabilizado pelos massacres de Aban 1398. As autoridades iranianas negam a maioria das mortes e atribuem a violência a 'arruaceiros' e 'inimigos externos'. Altos funcionários, como o Líder Supremo Ali Khamenei, que supervisionou diretamente a repressão, e o então presidente Hassan Rouhani, que defendeu os aumentos dos combustíveis, permanecem intocáveis. A falta de investigações independentes e a recusa em cooperar com organismos internacionais de direitos humanos mostram o desprezo do regime pela justiça. A impunidade para tais crimes é uma característica da República Islâmica, encorajando futuras violências e desrespeito pelos direitos humanos, como visto em protestos subsequentes.

A comunidade internacional foi amplamente criticada pela sua resposta morna. Embora muitas nações e organismos, como as Nações Unidas, tenham expressado preocupação e condenado a violência, as ações concretas para responsabilizar o Irã foram limitadas. As sanções existentes focam-se principalmente no programa nuclear e nas finanças, com pouca ênfase na violação sistêmica dos direitos humanos. Esta percepção de complacência internacional apenas reforça a impunidade do regime, permitindo-lhe continuar a reprimir dissidentes sem sérias consequências externas. O Irã Human Rights (IHR) e o Boroumand Center continuam a apelar por um mecanismo de investigação internacional para Aban 1398 e outros crimes contra a humanidade.

Um Futuro de Resistência e Memória

Aban 1398 não foi um evento isolado, mas sim um marco na longa história de repressão e resistência no Irã. Serviu como um prenúncio do que estava por vir em movimentos posteriores, como os protestos de 2022 após a morte de Mahsa Amini, onde o regime novamente recorreu à força letal e ao corte de internet. A memória dos que morreram em novembro de 2019 continua a impulsionar a luta por liberdade e justiça, reverberando nas vozes dos ativistas e na diáspora iraniana que incansavelmente procuram garantir que o mundo não se esqueça. A pressão interna e externa, embora muitas vezes frustrante, é a única via para desmantelar o ciclo de impunidade.

A luta por um Irã livre e democrático é complexa e demorada. No entanto, a determinação do povo iraniano, especialmente das novas gerações que testemunharam a brutalidade de Aban 1398, permanece inabalável. O futuro do Irã dependerá em grande parte da capacidade de sua população de se mobilizar, contornar a censura e manter viva a memória dos sacrifícios feitos. A esperança é que, um dia, os crimes de novembro de 2019 sejam plenamente reconhecidos, os seus perpetradores responsabilizados, e o Irã possa finalmente emergir de décadas de escuridão para uma era de justiça e direitos humanos para todos os seus cidadãos.

Sources

  1. Amnesty International: Iran: Iranian authorities’ brutal crackdown on November 2019 protests
  2. Reuters: Special Report: Iran's leader ordered crackdown on protests - 'Do whatever it takes to end it'
  3. Human Rights Watch: Iran: Regime Forces Massacred Protesters
  4. Iran Human Rights (IHR): IHR and JFI issue new report detailing killings during November 2019 protests
  5. Boroumand Center: Documenting the November 2019 Protests in Iran
  6. BBC News: Iran protests: What really happened in November?
  7. IranWire: A Crime Against Humanity: Unravelling The Mahshahr Massacre
  8. New York Times: The Secret History of the Iran Protests

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