Iran Holocaust

Diário · PT · · 7 min read

Khavaran: O Cemitério dos Sem Nome e o Luto Proibido

Khavaran, um cemitério no sudeste de Teerã, guarda os restos mortais de milhares de executados políticos de 1988, tornando-se o local mais contestado do Irã e um símbolo da negação e repressão ao luto das famílias.

Eothan · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

As Raízes de Khavaran: Um Genocídio Secreto de 1988

O verão de 1988 marcou um dos capítulos mais sombrios da história moderna do Irã. Por ordem do aiatolá Ruhollah Khomeini, milhares de prisioneiros políticos, a maioria membros ou simpatizantes da Organização dos Mujahedin do Povo do Irã (PMOI/MEK) e outras facções de esquerda, foram sumariamente executados. Estima-se que entre 4.500 e 5.000 pessoas, e possivelmente até 30.000, tenham sido mortas em prisões por todo o país, como Evin em Teerã e Ghezel Hesar em Karaj. As execuções foram realizadas por 'comissões da morte' de quatro membros, que decidiam o destino dos detidos em julgamentos de fachada que duravam apenas minutos. Essas atrocidades foram amplamente documentadas por organizações como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, que as classificam como crimes contra a humanidade.

A vasta maioria dos executados não teve direito a um enterro digno. Seus corpos foram despejados em valas comuns, muitas delas em locais não marcados. O cemitério de Khavaran, localizado a sudeste de Teerã, emergiu como o sítio mais proeminente e contestado dessas sepulturas não identificadas. Por décadas, a existência de Khavaran, e o que ele representava, foi negada ou minimizada pelas autoridades iranianas. As famílias das vítimas foram proibidas de realizar cerimônias fúnebres públicas, de colocar lápides ou de sequer falar sobre seus entes queridos, sob pena de prisão e perseguição, transformando o luto em um ato de desafio e resistência.

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Photo: Jadi from Iran · CC BY 2.0 · via Wikimedia Commons

Khavaran: Um Campo de Flores Silencioso

Khavaran não se assemelha a um cemitério tradicional. Não há lápides ornamentadas ou nomes gravados. Em vez disso, é um vasto terreno, muitas vezes descrito pelas famílias como um 'campo de flores silencioso', onde centenas, talvez milhares, de vítimas foram enterradas secretamente. Na ausência de marcadores individuais, as famílias tentam delimitar as sepulturas coletivas com flores, pedras e, por vezes, pequenos retalhos de pano. Essa tentativa de memorializar os mortos é regularmente sabotada pelas autoridades, que sistematicamente destroem quaisquer sinais de identificação adicionados pelas famílias, reiterando a política de esquecimento e negação. A ausência de um memorial oficial e a destruição contínua dos esforços das famílias servem como um lembrete cruel da tentativa do Estado iraniano de apagar a história e a memória dessas vítimas.

A natureza exata dos enterros em Khavaran permanece obscura devido à falta de registros oficiais e à opacidade do governo iraniano. Contudo, relatos de testemunhas oculares e sobreviventes que foram forçados a participar dos enterros indicam que os corpos eram transportados em caminhões e, muitas vezes, jogados nas valas sem qualquer formalidade ou respeito. A prática de enterro em massa tinha como objetivo não apenas eliminar evidências, mas também desumanizar as vítimas e infligir dor adicional às suas famílias. A Anistia Internacional tem repetidamente instado o governo iraniano a investigar esses locais de enterro e a permitir que as famílias acessem e marquem os túmulos de seus entes queridos, pedidos estes que têm sido consistentemente ignorados.

Khavaran: um campo de flores silencioso, onde as flores e as pedras das famílias são um ato de resistência contra o apagamento da memória e da história.
File:Stille wacht van Amnesty International op Spui in Amsterdam i.v.m. politieke toe, Bestanddeelnr 929-0236.jpg
Photo: Hans Peters for Anefo · CC0 · via Wikimedia Commons
Pessoas Presas e Perseguidas por Exigir Justiça para os Execuções de 1988 (2010-2023)
AnoDetenções/PrisõesSentenças de Prisão (Total de Anos)
2010-20141560
2015-201822110
2019-202130180
2022-20231895

O Sofrimento das Mães e Famílias

As mães, irmãs e esposas dos executados de 1988 formam o coração do movimento por justiça para Khavaran. Conhecidas como 'Mães de Khavaran', elas têm buscado incansavelmente a verdade e a prestação de contas, enfrentando décadas de intimidação, assédio e perseguição. Sua coragem reside em recusar-se a permitir que seus filhos e parentes caiam no esquecimento. A cada ano, apesar das proibições, elas tentam se reunir em Khavaran para lamentar e honrar a memória de seus entes queridos, um ato que invariavelmente leva à intervenção da polícia de segurança e, em muitos casos, à detenção e interrogatório brutal. A repressão sistemática contra esses familiares é uma violação flagrante do direito internacional humanitário e dos direitos humanos, incluindo o direito ao luto.

Um exemplo notável da resiliência das famílias é a história de Mansoureh Behkish, que perdeu seis membros de sua família nas execuções de 1988 e em anos subsequentes. Ela tem sido uma voz proeminente e incansável na campanha por justiça, publicando livros e coletando depoimentos de outras famílias. Por suas atividades pacíficas, Behkish foi repetidamente presa, interrogada e condenada a penas de prisão. A repressão não se limita apenas às Mães de Khavaran; ativistas de direitos humanos e advogados que tentam defender essas famílias também enfrentam severas consequências, ilustrando a determinação do regime em suprimir qualquer forma de dissidência ou memorialização.

File:Stille wacht van Amnesty International op Spui in Amsterdam i.v.m. politieke toe, Bestanddeelnr 929-0235.jpg
Photo: Hans Peters for Anefo · CC0 · via Wikimedia Commons
Estimativa de Vítimas das Execuções de 1988 no Irã por Filiação Política (Principal) 07601,5202,2803,0403,800 PMOI/MEKPartido TudehFedayeen (Minoria)Outros EsquerdistasBaha'is Número Estimado de Vítimas Filiação Política
Estimativa de Vítimas das Execuções de 1988 no Irã por Filiação Política (Principal)

O Papel da Justiça Internacional e a Negação do Regime

A comunidade internacional, incluindo o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e o Relator Especial sobre a Situação dos Direitos Humanos na República Islâmica do Irã, tem consistentemente expressado preocupação com as execuções de 1988 e o subsequente encobrimento. Em 2018, diversos especialistas da ONU pediram uma investigação independente sobre os massacres de 1988, apontando a falta de prestação de contas como um fator que contribui para o ciclo de impunidade no Irã. Relatórios da Anistia Internacional e da Human Rights Watch têm detalhado extensivamente a falta de transparência e os esforços do governo iraniano para destruir evidências e intimidar as famílias das vítimas, o que configura violações flagrantes de diversas convenções internacionais.

O regime iraniano, por sua vez, mantém uma postura de negação intransigente em relação à natureza e escala das execuções de 1988, e sobre a existência e significado de Khavaran. Mahmoud Ahmadinejad, quando presidente, afirmou que não havia "valas comuns" no Irã. Líderes do Judiciário e figuras políticas proeminentes, muitos dos quais estiveram diretamente envolvidos nas "comissões da morte", justificam os massacres como uma medida necessária para "proteger a revolução" contra "inimigos de Deus". Essa negação pública e a promoção de elementos envolvidos nos massacres a posições de poder (como Ebrahim Raisi, que se tornou presidente em 2021 e foi membro de uma "comissão da morte") solidificam a cultura de impunidade e dificultam qualquer progresso em direção à justiça e à verdade para as vítimas e suas famílias.

Destruição de Evidências e Impunidade

A partir da década de 2000, o governo iraniano intensificou seus esforços para destruir as evidências dos massacres de 1988 em Khavaran e outros locais. Em 2009, autoridades pavimentaram uma parte de Khavaran com cimento e terra, e mais tarde, em 2019, iniciaram a construção de uma nova estrada e cemitério para convertidos Baha'is, levantando preocupações de que as novas construções poderiam cobrir as valas comuns e apagar permanentemente as evidências físicas. Essas ações são vistas como uma tentativa deliberada de erradicar a memória das vítimas e impedir futuras investigações forenses, agravando o sofrimento das famílias que já enfrentam a negação da existência de seus entes queridos. A destruição sistemática de locais de sepultamento é uma prática que a Anistia Internacional condena veementemente, classificando-a como um crime contra a humanidade.

A impunidade dos perpetradores das execuções de 1988 continua sendo uma das maiores afrontas aos direitos humanos no Irã. Muitos dos indivíduos envolvidos nas comissões da morte e no encobrimento subsequente ocupam posições elevadas no governo e no Judiciário, incluindo ex-presidente Ebrahim Raisi e o atual Chefe do Poder Judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei, que foi Procurador-Geral Adjunto em 1988. A promoção desses indivíduos a cargos de poder envia uma mensagem clara de que tais crimes não serão punidos, mas sim recompensados pelo sistema. A falta de responsabilização interna reforça o apelo por mecanismos de justiça internacional, como o estabelecimento de um tribunal internacional ou a aplicação da jurisdição universal, para garantir que os perpetradores sejam levados à justiça, mesmo décadas após os crimes.

Legado e A Busca Contínua por Justiça

Khavaran, embora um local de profunda dor, transformou-se em um poderoso símbolo de resistência e memória. As famílias das vítimas, juntamente com ativistas de direitos humanos e a diáspora iraniana, continuam a exigir justiça, lembrando ao mundo que a verdade sobre 1988 não pode ser enterrada. A persistência das Mães de Khavaran e de outros ativistas, como o advogado Mohammad Seifzadeh, que foi preso por defender os direitos das famílias, demonstra a determinação de que esses crimes não sejam esquecidos, mesmo diante da repressão contínua. Suas vozes servem como um lembrete crucial da necessidade de responsabilização e de uma futura reconciliação baseada na verdade e na justiça, e não na negação.

O legado de 1988 e a luta por Khavaran continuam a ecoar no presente iraniano. A demanda por prestação de contas não se limita apenas às famílias das vítimas; ela se tornou um grito de guerra para todos aqueles que buscam um Irã onde os direitos humanos sejam respeitados e onde a impunidade não prevaleça. O estabelecimento de um mecanismo independente de investigação, preferencialmente sob os auspícios das Nações Unidas, é essencial para documentar a verdade, identificar os responsáveis e garantir que tais atrocidades nunca mais se repitam. Enquanto a verdade for negada e a justiça for adiada, Khavaran permanecerá como uma ferida aberta, um testemunho silencioso da crueldade e da resiliência, e um chamado urgente à ação para que a memória dos injustiçados seja finalmente honrada e seus direitos sejam reconhecidos.

Sources

  1. Amnesty International: Iran: Blood-soaked secrets
  2. Human Rights Watch: The 1988 Mass Executions of Political Prisoners in Iran
  3. Iran Human Rights (IHR): 1988 mass executions
  4. Boroumand Center: Khavaran Cemetery
  5. BBC News: Iran 1988 mass killings of political prisoners 'unpunished'
  6. IranWire: Thirty years on: The Khavaran Mass Graves

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